É usual falar-se na dependência do tabaco, do álcool e das drogas , mas a dependência de determinados medicamentos já começa a ser encarada como um problema grave e muito sério na sociedade.
Os antidepressivos e os ansiolíticos, embora muitas vezes receitados para sintomas comuns e de resolução simples, tornaram-se na única solução para a chamada “doença da moda” – o stress.
Diana Oliveira, estudante, diz que começou a tomar antidepressivos porque tinha ataques de pânico frequentes. Só toma este tipo de medicamentos enquanto tiver acompanhamento psiquiátrico, até aprender a controlar os ataques sozinha.
A acção dos antidepressivos ocorre no Sistema Nervoso Central, normalizando o humor, mas só actuam em pessoas com depressão. Estes fármacos são utilizados para o tratamento da depressão (perturbação do humor), do pânico (caracterizado pelo desenvolvimento de ataques inesperados) e da fobia social (medo persistente e acentuado de situações sociais). Os antidepressivos podem levar à incapacidade de conduzir, ao risco de hipertensão arterial e a reacções paradoxais mais evidentes em idosos e crianças.
Receitados, usualmente, em simultâneo com os antidepressivos, os ansiolíticos são usados no combate da ansiedade patológica, visando tranquilizar o doente. Estes medicamentos tentam minimizar os sintomas de stress. São um perigo quando administrados incorrectamente. O uso de ansiolíticos pode provocar algumas reacções adversas, como sonolência, vómitos, dependência e vertigens.
Filipa Araújo, estudante de psicologia, reconhece que tomou ansiolíticos para conseguir controlar a ansiedade que sentia perante situações mais desfavoráveis. Esta estudante admite que quando tomava estes fármacos parecia ter um pouco mais de sonolência. Agora, já não os toma, porque aprendeu a controlar a sua ansiedade.
Segundo a revista Farmácia Saúde, os portugueses “consomem mais antdepressivos. Em 2001, venderam-se perto de 4 milhões de embalagens, mais do dobro do que se consumiu uma década antes (1,8 milhões em 1992). E vendem-se igualmente mais ansiolíticos, hipnóticos e sedativos, bem como neurolépticos”.
A Organização Mundial de Saúde (2001) prevê que a depressão se torne a maior causa de morbilidade nas primeiras duas décadas deste século.
Na opinião de António Oliveira Reis, farmacêutico, tem existido um aumento do consumo de antidepressivos e dos ansiolíticos, o que relaciona com uma sociedade que vive em stress, e que leva muitos a criarem dependência destes medicamentos.
Segundo Isabel Paiva, sub-chefe de Enfermagem, CPRArnes, “o uso prolongado pode causar dependência e síndrome de abstinência quando a medicação é interrompida”. Outros profissionais de saúde são da opinião que, actualmente, este tipo de psicofármacos são administrados em doses excessivas e, em alguns casos, desnecessárias, podendo ser substituídos por psicoterapias.
É frequente observar-se, principalmente nos serviços de Psiquiatria, a presença de doentes completamente sedados, ao ponto de não conseguirem satisfazer as suas necessidades básicas como higiene e alimentação de forma autónoma, o que não se verificava antes do processo de tratamento.
Fazendo uma analogia, a utilização dos psicofármacos deve funcionar como o corrimão, onde a pessoa se apoia para ter equilíbrio suficiente para subir uma escada muito alta. Logo que adquira a ritmo de subida, pode deixar o corrimão e continuar a subir sozinha. Este corrimão apenas dá sustentação, mas o esforço principal deve ser do doente. Neste processo a motivação e auto-estima são aspectos cruciais.
Sara Santos
3º Comunicação Social
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Usar sem abusar
Reabilitação ritmada
São 15H00. A Sala do Papel, no Pavilhão das Actividades, está toda decorada com trabalhos artesanais. A música natalícia vinda de um pequeno rádio torna o ambiente calmo e acolhedor. Cátia Curado, psicóloga, sentada em redor de uma mesa, elabora cartões de Natal com a ajuda de oito homens que recortam estrelas. À primeira vista ninguém diria que são oito dos cerca de 150 utentes que o Centro Psiquiátrico de Recuperação de Arnes (CPRArnes) alberga. Nas salas ao lado vêem-se garrafões encestados, caixas montadas, convites de casamento, ementas, … uma pluralidade de trabalhos manuais que conta com lugar reservado em várias feiras de artesanato.
É na confecção destes artigos, encomendados por entidades do exterior em grandes quantias, que os doentes do CPRArnes ocupam algum do se tempo. Segundo a coordenadora do Serviço Social da Instituição, Argentina Sobral, “a ocupação tem o fim de manter o doente activo, para que não haja perda de competências pessoais e laborais”.
Ao lado do Pavilhão das Actividades avista-se a Carpintaria. A música natalícia envolve também este ambiente. Entre madeiras e serrotes, João Basílio, carpinteiro credenciado, auxilia um utente no acabamento de um quadro de colmeias que se será colocado junto das outras dezenas já confeccionadas.
Dalí, ouve-se um som vindo da rua. É um tractor. Um funcionário prepara um dos poucos terrenos ainda em pousio. A restante área, de grandes proporções, já foi laborada pelos utentes. Os produtos de agricultura biológica ali cultivados destinam-se ao abastecimento de várias entidades de restauração.
Por desenvolverem estas actividades, os utentes recebem uma pequena remuneração monetária. Segundo Cátia Curado, factores como o comportamento, a assiduidade e a pontualidade interferem na quantia do pagamento que se destina a financiar alguns mimos, como um café ou um bolo.
Ainda na área das actividades, existe a residencial que complementa a vertente da autonomia pessoal. “Os doentes são encaminhados para a unidade habitacional, onde tomam conta de si próprios com o mínimo de supervisão, tendo um programa de actividades que visa aperfeiçoar as suas competências a todos os níveis”, esclarece o responsável clínico pelo Centro e psiquiatra, António Canhão.
No percurso que separa a residência dos restantes pavilhões respira-se ar puro. Há utentes a cuidar do jardim. Além da paisagem verde, do pomar das estufas, existe um campo de futebol onde, duas vezes por semana, os doentes têm aulas de Educação Física.
O relógio de Fátima Monteiro, auxiliar, marca 16H00. Cabe-lhe supervisionar as tarefas dos residentes, assim como a higiene pessoal ou a toma da medicação. O dia de labuta já terminou para João (nome fictício), que regressa à residência e trata da sua higiene pessoal. Um cheiro agradável caracteriza a sala do rés-do-chão, destinado ao centro de dia, onde Rui (nome fictício) espera a carrinha que o conduzirá até à estação de comboio, para regressar a casa. É um dos utentes externos que frequentam o centro das 9H00 às 16H20.
As escadas que partem da sala conduzem ao 1º andar, onde habitam os doentes internos. No quadro de cortiça pregado numa parede do corredor, estão afixadas várias listas de tarefas a realizar pelos utentes. No terraço, José (nome fictício) apanha a sua roupa do estendal. Lavou-a, estendeu-a e agora recolhe-a para a engomar. É o que todos os utentes fazem com o seu vestuário.
Enquanto Fátima Monteiro efectua algumas tarefas, é surpreendida por um utente que lhe dedica uma canção, ritmada com palmas. O ambiente em Arnes é animado. O fundamental, como diz Argentina Sobral, é “acreditar na reabilitação e apostar no apoio permanente”, pois só assim as taxas de sucesso continuarão a ser “altíssimas”.
Diana Andrade
3º Comunicação Social
Uma porta sempre aberta
A recepção é pequena para tanta gente. Há pessoas à espera na rua, outras aguardam pacientemente nos cafés do Terreiro da Erva. Entram com sacos vazios, saem com sacos cheios. Um homem na casa dos cinquenta, enrugado pelo tempo ou pela vida, pede à funcionária um blusão quente para o Inverno. “Agora não há”. Mas a funcionária promete : “Se para a semana vier algum, fica guardado para si”. É dia de distribuição no Centro Porta Amiga de Coimbra.
“Como filosofia, a população primeira com a qual trabalhamos é a sem-abrigo”, explica Paulo Pereira, assistente social e Coordenador do Centro Porta Amiga de Coimbra da AMI. Mas nem todos os utentes da Porta Amiga representam a face extrema da exclusão social. Os que hoje aguardam na recepção não são disso exemplo. Paulo Pereira salienta : “Atendemos toda e qualquer pessoa que se encontre numa situação de carência”.
Muitos daqueles que procuram esta ajuda estão marcados pela dureza da vida, por uma «pobreza tradicional», classifica o coordenador. Mas esta situação já não é regra. Actualmente, a maioria das pessoas que recorre ao centro já não faz parte da «pobreza e exclusão tradicionais». São pessoas como nós. «Novos pobres». Agora, todas as lógicas de intervenção social têm de ser readaptadas.
Raquel faz parte desta «nova classe». Entra cheia de pressa. Só pôde vir agora, teve de faltar às aulas do curso. Mostra a identificação e assina uma folha na recepção. Uma funcionária traz-lhe três caixas cheias. Vem buscar a parte de géneros alimentares a que tem direito esta semana.
No dia em que Raquel chegou à Porta Amiga em Coimbra, tal como todos os outros utentes, foi recebida por uma assistente social. Paulo Pereira deixa a questão: “E se um dia fôssemos nós a viver na rua, será que nos saberíamos mexer dentro dessa subcultura?”. A ilustração na nossa mente pretende que cheguemos à mesma conclusão que o coordenador: “Pedir pela primeira vez é sempre muito complicado”. A ajuda é prestada consoante as necessidades de cada um. O coordenador explica: “O centro assenta em duas lógicas de apoio: intervenção às necessidades básicas e serviços de apoio social, médico e jurídico”. Cada utente possui um processo onde é feita a listagem de todos os serviços dos quais vai usufruir.
Há pouco, muitos destes utentes acabaram de almoçar. O refeitório é pequeno, com uma capacidade que ronda as doze pessoas. É o “Restaurante do Coração”, um dos serviços que proporciona uma das necessidades mais básicas: alimentação. Mas só funciona ao almoço. De resto, o centro vai fornecendo géneros alimentares “conforme a necessidade”. Mas isso só serve àqueles que podem cozinhar em casa.
Não é o caso daqueles que fizeram da rua a sua morada. De dia, andam por aí alienados. Nós, sociedade, temos tendência para não os ver. “É a cegueira louca das pessoas”, define o assistente social, “é talvez o medo de um futuro”. Nas noites de Coimbra, oito instituições trabalham articuladamente na intervenção social com os sem-abrigo. “Há uma equipa de rua que todas as noites passa pelos locais onde eles estão, tenta motivá-los para a mudança, para aceitarem alojamento”, explica Paulo Pereira: “É o trabalho que não mostra resultados tão rapidamente”.
Estes «pequenos-grandes» trabalhos deveriam ser sempre recompensados. Mas nem sempre é assim. “Vai-se conseguindo alguma melhoria das condições de vida, alguma reinserção social”, afirma o coordenador, “mas, infelizmente, muitas das vezes, as pessoas voltam à situação inicial, não conseguem estar ao nível da normalidade imposta pela pressão social”.
Na recepção, entra agora um rapaz novo que aguardava na rua. Apenas quer confirmar a sua presença na Festa de Natal. É o próximo «pequeno-grande» evento realizado pela AMI. Um lanche no apertado refeitório do centro, com prendas para as crianças e cabazes de comida e roupa para os adultos.
Enquanto o rapaz dá o seu nome para a lista de presenças na festa, uma senhora abre a porta e pousa um saco cheio de roupa. Ao virar costas fica somente um “Feliz Natal”. A funcionária abre o saco. Mexe, remexe. Encontra um blusão, quente para o Inverno. Ainda na recepção, o homem marcado pela dureza do tempo ou da vida, reclama “Esse não, não é quente o suficiente”. O outro continua então prometido. Para a semana.
Já tem o seu saco na mão. Cheio. Hoje, nada mais há a fazer ali. “Venho então cá para a semana”, despede-se. E sai. Para trás dele, fica uma recepção ainda cheia com pessoas de sacos vazios que esperam a sua vez. E nas suas costas bate a porta onde se pode ler «A AMI enfrenta um Mundo que mais ninguém quer ver». Cegueira louca.
Vânia Furet
3º Comunicação Social
Amor gratuito
Os últimos raios de sol apontam para os singelos desenhos pendurados na parede. A sala de estar enche-se de luz e ilumina ainda mais as obras expostas dos “artistas de palmo e meio”. Entretanto, a Madre Maria Teresa Granado sorri, dizendo: “Deve estar mesmo a chegar, correu tudo bem de certeza…corre sempre!”. Passados poucos minutos irrompe pela sala uma menina saltitante e com um sorriso do tamanho do mundo. Inês (nome fictício) é uma das crianças da Comunidade Juvenil São Francisco de Assis que têm uma “Família Amiga” e acaba de chegar a “casa”, no final do fim-de-semana. “Foi fixe, fartei-me de passear” conta à Madre, sem nunca largar o sorriso.
As “Famílias Amigas” “apadrinham” uma, ou mais, crianças de uma instituição, indo “buscá-las para passarem fins-de-semana ou férias”, explica a Madre Teresa, directora da Comunidade Juvenil São Francisco de Assis. “Estas famílias têm que ser muito bem escolhidas e têm de ter consciência da responsabilidade que lhes é posta nas mãos”, sublinha. O processo começa no momento em que uma família decide acolher uma criança em sua casa. A partir desse instante recolhem-se “os dados habituais, ou seja, os números do BI, morada, profissão, entre outros”, conta a Madre Teresa. O processo de escolha das “Famílias Amigas” varia de instituição para instituição. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, por exemplo, exige que as famílias passem por uma entrevista e, posteriormente, se escolhidas, por uma formação. Existem, ainda, instituições que não são a favor destes projectos.
Consciências
“Este género de actividades só aumenta a instabilidade emocional das crianças” diz Margarida Pinhal, psicóloga da “Obra da Criança”, de Ílhavo. Esta instituição, que acolhe cerca de 30 crianças e jovens, é contra este tipo de programas. Segundo a psicóloga, “não é saudável mostrar às crianças uma realidade que não é a delas, isso causa traumas enormes”. A “Obra da Criança” teve, durante alguns anos, o projecto “Família Amiga”, contudo, explica Margarida Pinhal: “Chegámos à conclusão que a estabilidade emocional das crianças era muito afectada".
A opinião em relação a este género de projectos não é unânime no seio das instituições de solidariedade infantil. Exemplo disso é a “Comunidade Juvenil São Francisco de Assis”, em Coimbra. Para a directora da instituição, a Madre Maria Teresa Granado, estes projectos são de “grande valor porque é óptimo para as crianças puderem contactar com estas famílias”. A partir da convivência com as famílias que as acolhem, as crianças vêem como funciona uma família (com mãe, pai e filhos). Ao mesmo tempo que ganham esta noção, que lhes será útil quando, no futuro, constituírem família, apercebem-se de que as regras que lhes são impostas na instituição "são as mesmas que os pais impõem aos seus próprios filhos”, esclarece a directora.
Se em instituições, como a “Comunidade São Francisco de Assis”, cada família acolhe sempre a mesma criança, o mesmo não acontece em outras que têm este projecto. No Centro Paroquial e Social de Recardães, em Águeda, “cada criança tem 2 ou 3 famílias com quem costuma ir passar apenas os domingos”, diz Maria Gabriela, coordenadora do projecto. “É essencial garantir que as crianças não se pegam demasiado às famílias”, acrescenta.
A Família Amiga
João Carvalho, Maria do Céu e a filha Joana, constituem uma família que acolhe, há mais de dez anos, aos fins-de-semana, crianças do Centro Paroquial e Social de Recardães. Tudo começou porque “a Joana, quando acabou o curso de Serviço Social, esteve a estagiar no Centro e, como tinha muita pena das crianças, começou a trazer algumas cá para casa”, conta a mãe, Maria do Céu. O domingo é passado verdadeiramente em “família” e levam as crianças a passear e a contactar com a natureza porque “elas adoram”, dizem. Esta família descreve a experiência como “maravilhosa”. Mas “na hora da despedida é um sofrimento horrível, tanto para nós como para eles”, deixa escapar João Carvalho.
Salomé Filipe
3º Comunicação Social
Um ofício de paixão
Toda a gente passa. Todos olham. Ninguém compra. Mas o entusiasmo e a dedicação acompanham sempre o trabalho na Praça do Comércio. Um trabalho árduo, com paciência e perfeccionismo, sempre um ofício de paixão. De qualquer canto do mundo, de qualquer país, de um lugar desconhecido, eles vivem para a sua arte. São artistas de rua.
“Os meus retratos são desenhados a lápis de carvão ou a óleo sobre tela ou a pastel”, explica Anildo Santana. É alto e moreno. A sua roupa está manchada com diversos tons devido aos seus trabalhos secundários que são feitos com aguarela. Não se incomoda que alguém esteja a falar com ele enquanto trabalha desde que não tenha que olhar nos olhos: “Não posso me distrair, tenho muitos retratos para terminar”. Adora apresentar a sua arte na rua. Não estar fechado num ateliê e não pagar renda e, acima de tudo, “o contacto com o público ”. É assim que Anildo justifica a opção por trabalhar na rua.
Mesmo sendo uma tarde de Inverno, a Baixa de Coimbra está repleta de movimento. O sol convida as pessoas a passearem pelas ruas frias e cinzentas, a fazerem as suas compras de Natal, no entanto, poucas são as que compram presentes nas tendas dos denominados artistas de rua. Lurdes Santos monta a sua tenda apenas nesta época, durante duas semanas. Aqui, pode vender directamente ao cliente final e, assim, pedir um preço minimamente justo pelas suas peças.
A artesã considera o contacto com o público “pobre”, mas há sempre pessoas que admiram, enquanto outras optam por não se manifestar relativamente ao seu trabalho e aos dos seus “vizinhos” da praça. Essencialmente, aprende-se a lidar com todo o tipo de pessoas. Diz Marcelo Andrade, também artesão: “Vai-se adquirindo alguma experiência de vida e até aprendo a falar outras línguas”.
Oriundo das terras do Brasil, foi em Portugal que descobriu que as suas mãos eram capazes de manusear a semente da flor de jacarandá: "Quando cheguei a Portugal não tinha qualquer tipo de formação e, um dia, ao passear na Praça da República encontrei uma folha de jacarandá que despertou a minha criatividade”. Consegue criar bijutaria única e original, pois esta folha originária do Brasil é fruto da natureza e esta nunca se repete. Sendo uma forma de reciclagem, aproveita o que a natureza lhe dá.
O movimento é constante. Não há nenhuma mudança visível. A procura de peças exclusivas é escassa. Os mais curiosos, homens e mulheres, observam e comentam os trabalhos expostos nas tendas improvisadas. Perguntam aos artistas como é feito aquele tipo de trabalho:” Isto tudo é feito por si?”. Mas continuam o seu caminho sem comprarem nada.
Para criar peças diferentes com frequência é necessária inspiração. Uns dizem que a inspiração vem da “alma”, outros que vem da “falta de dinheiro” e há quem defenda que, quando há “paixão pela arte e dá prazer”, trabalha-se em qualquer lugar.
Os artistas de rua criam, inventam, transpiram arte, ou seja, tudo o que está para venda nas suas tendas são resultado da sua criatividade e inspiração. Seja uma tarde fria de Inverno ou uma tarde quente de Verão, as mentes inquietas destes "dotados com alguma coisa", não param. “Criação” é a palavra de ordem.
Daniela Couto
3º Comunicação Social
Europa sem fronteiras
A Europa está de portas abertas. São cada vez mais os jovens que se aventuram a descobrir novos países. O desejo de partilha de experiências e o conhecimento de novas culturas são duas fortes razões que incentivam jovens de toda a Europa a realizar a mobilidade Erasmus.
O protocolo Erasmus é um programa de mobilidade de estudantes do Ensino Superior entre estados membros da União Europeia. Permite que os alunos estudem noutro país por um período de 3, 6 e 12 meses. Os estudantes, dentro das universidades europeias que têm acordo Erasmus com a universidade que frequentam, podem escolher a instituição que lhes agrada mais.
Apesar da tarde de sol, sente-se o frio e corre um vento húmido vindo do rio Mondego, em Coimbra. “Não compreendo”, responde timidamente e com um sotaque italiano, Davide Russo, ao empregado do café onde está sentado, quando este lhe pergunta: “o que deseja tomar?”.
David Russo de 22 anos, trocou Florença por Coimbra há mais de três meses. Morava e estudava em Florença na Universitá degli Studi di Firenze, no 2º ano do curso de Estudos Internacionais. Chegou a Portugal em Setembro e escolheu estudar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
“Realizar a mobilidade Erasmus era algo que não estava nos meus planos”, confessa Davide. Decidiu iniciar esta aventura depois de conhecer estudantes Erasmus portugueses que integraram a sua turma enquanto estudava na cidade italiana, “percebi que o contacto com outras culturas e pessoas, contribuem muito para a nossa evolução social e cultural”.
Chegou a Portugal sozinho, com “armas e bagagens”. Confessa ter sentido medo de não se integrar num país, para ele totalmente desconhecido. Os dias passaram, o medo desapareceu e admite agora, estar perfeitamente integrado na sociedade portuguesa. “Conheci pessoas novas incluindo outros estudantes Erasmus italianos e agora adoro esta cidade, as pessoas são muito simpáticas”, revela Davide.
Coimbra é conhecida, em Portugal, como a cidade dos estudantes e também considerada uma das que melhor integra os estudantes Erasmus. Davide é um dos 530 estudantes Erasmus nesta cidade portuguesa e a Universidade de Coimbra conta com 340 acordos entre universidades e instituições públicas e privadas por toda a União Europeia. Frequentemente são organizadas festas de Erasmus, na qual pode participar qualquer pessoa (mesmo não sendo estudante ou Erasmus). O importante é “a partilha de culturas e experiências”, esclarece Davide, num português ainda confuso. Com espanto, recorda ter encontrado numa dessas festas, alguns dos portugueses Erasmus que conheceu em Florença.
Escolheu Portugal, por ser um país quente e principalmente, por ter curiosidade em conhecer a cultura portuguesa. A escolha da cidade de Coimbra também não foi ao acaso. Colegas de turma, em Florença, que já tinham realizado esta mobilidade, descreveram as suas vivências pela “cidade dos estudantes portuguesa” como uma “experiência única” e “muito produtiva a nível social e educacional”.
Quanto ao ensino português, Davide, considera-o “acessível”. As disciplinas que escolheu realizar na Faculdade de Letras são semelhantes ás que realizou em Itália, mostrando-se por isso optimista em relação ao seu aproveitamento escolar neste ano lectivo.
Veio para ficar durante seis meses mas, pensa agora em prolongar o prazo da sua matrícula em Portugal, “já contactei os serviços administrativos da minha universidade em Florença, para saber se é possível ficar em Coimbra mais um semestre”. Está a adorar esta nova experiência. Ambiciona repetir a mobilidade Erasmus antes de finalizar o curso. Caso isso não seja possível, promete voltar em breve para rever os amigos, com os quais garante ter “traçado grandes laços de amizade”.
Cláudia Ferreiro
3º Comunicação Social
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Mancha sem nódoa
Dizem os adeptos mais emotivos que ser da Académica é ter paixão. É gritar, lutar, apoiar, enrouquecer, incentivar, ir, estar, defender, acreditar, resistir, crer, rir e chorar. O preto que os une na bandeira, nas camisolas, na capa e na batina é o mesmo que os irmana sob o historial do clube, com os seus valores, os princípios e ideais.
A Mancha Negra surgiu da fusão de três claques, Força Negra, Maré Negra e Solum Power. Nasceu no dia 3 de Março de 1985, num jogo entre a Académica e o Sporting de Braga. A claque decidiu usar o nome de uma das personagens de Walt Disney, o vilão Mancha Negra e, ao contrário do que o nome indica, dá sempre um colorido aos estádios onde se apresenta. Desde cedo que os objectivos do grupo passaram por estabelecer amizades com outras claques, por “torcer” pela Académica e por contribuir para o desenvolvimento do espírito “ultra” em Portugal.
O número de inscritos na Mancha Negra, e com a situação regularizada, tem vindo a diminuir, ficando, actualmente, pelos 1300. “Para ser sócio da Mancha Negra é necessário, antes de mais, ser-se sócio da Académica”, esclarece Bruno Dinis, antigo membro da direcção.
No contexto actual do clube, a opinião da Mancha Negra é ouvida regularmente, quer pelas sucessivas direcções da “Briosa”, quer pela comunicação social da zona centro do país.
Desde a sua fundação, a “MN” nunca deixou de apoiar a Académica e assume-se “100% Briosa” e conta com o apoio da direcção do clube. Actualmente, a claque está organizada por núcleos que representam as várias zonas da cidade, cujos chefes, asseguram que a informação chega rapidamente a todos os membros.
Muitos olham de lado para as claques, talvez por apenas as associarem a episódios de violência. Ao longo dos tempos, a Mancha Negra foi evoluindo em termos de mentalidade e conseguiu, apesar da presença, de muitos anos, da Académica na segunda divisão, criar fortes raízes que hoje em dia sustentam a claque. Luís Carvalho, membro do núcleo de S. Martinho do Bispo e adepto incondicional da Briosa, reforça essa ideia: “A MN é, acima de tudo, um grande grupo de amigos”. A Mancha Negra encontra-se neste momento bem preparada para receber novos elementos, na certeza de que a mensagem passará correctamente a quem chega e de que todos ficarão imbuídos do verdadeiro espírito “ultra”.
Organização é algo em que nunca foi forte. No entanto, tem-se mudado gradualmente esta forma de estar da claque e, aos poucos, a organização tem vindo a impor-se. A criação da revista Central B é exemplo disso. Funciona como veículo de transmissão das ideias dos adeptos da Académica em geral e dos “manchas” em particular. A claque criou também o seu sítio na web (www.manchanegra85.com) com o intuito de estar mais próxima das pessoas, nomeadamente dos seus membros. “É uma forma de apresentar às pessoas a sua história, as suas actividades e as suas aventuras em cada viagem”, esclarece Bruno Dinis.
A Mancha Negra tem sido uma claque muito activa e atenta aos problemas da Académica. Deste modo, os membros da Mancha não se inibem de fazer passar a sua mensagem, quer participando nas assembleias de sócios do clube, quer no estádio, lugar de eleição para a actuação da claque.
Para os elementos da MN, o espectáculo das bancadas não se restringe somente aos cânticos de incentivo à equipa e afirmam que as coreografias são uma espécie de arte. Para Luís Carvalho, esta é uma forma de demonstrar o seu amor pela “Briosa” e pela cidade de Coimbra. “Um dia, até fiz uma bandeira com 15 metros quadrados”, conta cheio de orgulho. A “arte” exibida nas bancadas reflecte um trabalho árduo, levado a cabo durante semanas por alguns “ultras”. “O prazer de assistir ao resultado desse trabalho, de saber que a coreografia teve o efeito desejado é comparável, muitas vezes, ao sabor das vitórias da Briosa”, afirma Luís Carvalho.
A vida da claque não passa apenas pelo futebol. As actividades paralelas são uma constante. O convívio na sede, a realização de “patuscadas” e grandes jantares, os jogos de futsal entre os elementos e outras actividades lúdicas são parte integrante do dia-a-dia da Mancha Negra.
Apesar de, por vezes, o clube não lhes dar tantas alegrias com desejariam, os “manchas” continuam a apoiar incondicionalmente a Briosa. Bruno Dinis remata: “é uma claque diferente, num clube diferente. Não nos cansamos de dizer que se ela jogasse no céu, morreríamos para a ver jogar”. Grupo 2